Otimismo na velhice - *Fernando Canzian

Não surpreende o otimismo com a velhice no Brasil.

Só 17% dos brasileiros, segundo pesquisa mundial feita pelo HSBC, associam a vida de aposentado à ideia de aperto econômico. A média mundial é quase o dobro disso (32%).

Apesar de estar emergindo, o Brasil ainda é um país pobre e sem escolarização.

Segundo o Datafolha, 47% dos brasileiros acima de 16 anos cursaram só o ensino fundamental. Uma parcela quase igual tem renda familiar mensal de até dois salários mínimos, ou menos de R$ 1.100.

Ou seja, quase a metade do país (considerando famílias de quatro pessoas) vive com menos (as vezes bem menos) de R$ 270 ao mês individualmente.

Além disso, o Brasil é um país generoso com seus aposentados. Mesmo os que nunca contribuíram com a Previdência acabam, de alguma forma, se aposentando com um salário mínimo (R$ 545).

O "boom" econômico e de crédito dos últimos anos pode piorar um pouco esse quadro.

O país e as pessoas são tão carentes que não consideram o custo de se tomar empréstimos por aqui. Em vez de poupar e pagar por apenas uma geladeira, acabam entrando no crediário caro e pagam por quase duas.

Mesmo na classe média, é comum ver pessoas com carros enormes (financiados ou não) entrando em garagens de prédios modestos.

O Brasil é um dos países com a menor taxa de poupança do mundo. Seja privada ou pública.

No caso do setor privado, poupa pouco porque ainda é muito pobre e há carências enormes por bens e serviços.

No caso do setor público, que fica com quase 40% do PIB em impostos, porque gasta mal, é corrupto e ineficiente.

E, justiça seja feita, porque acaba bancando, no final, os pobres quando se aposentam.

 

*Fernando Canzian é repórter especial da Folha. Foi secretário de Redação, editor de Brasil e do Painel e correspondente em Washington e Nova York. Ganhou um Prêmio Esso em 2006 e é autor do livro "Desastre Global - Um ano na pior crise desde 1929". Escreve às segundas-feiras na Folha.com.

Fonte: Folha de São Paulo Online