Contribuição da teologia à paz e à justiça social, 2ª parte


Só uma religião sadia contribui realmente para uma socieade justa e pacífica

Se a tese da religião como parte integrante da sociedade humana sofre contestação, não é tanto do lado da teoria quanto do lado da prática. De fato, o processo histórico da marginalização e mesmo do alijamento paulatino da religião em relação à sociedade tem uma de suas raízes nas "guerras de religião", principalmente entre católicos e protestantes no século XVI-XVII, tal a sangrenta "Guerra dos Trinta anos". Quer dizer: grande parte do descrédito social das religiões se deve aos rios de sangue que foram vertidos "em nome de Deus".
 
Há de se reconhecer que, na gênese da crítica e mesmo da aversão à religião, ex-pressas sobretudo no ateísmo moderno, têm "grande parte" de responsabilidade os próprios crentes, que, como declara o mesmo Vaticano II, "por faltas na sua vida religiosa, moral e social... mais escondem que manifestam a face genuína de Deus e da religião" (GS 19,3). Como se sabe, corruptio optimi péssima; ou seja, tanto maior a queda quanto maior é altura.

Devemos, contudo, dizer também que as opressões sociais provocadas pela religião não se deram propriamente por causa de seus princípios, mas apesar deles. A pró-pria rejeição da religião que tais opressões provocaram depõe em favor da própria religião, pois manifesta apenas a decepção da consciência frente àquilo que se po-deria legitimamente esperar dela. Por isso, embora a religião, do mesmo modo que a irreligião, como vimos, tenha sua parte de responsabilidade na desumanização social do homem, não há paridade qualitativa entre ambas. Pois o que aparece como fruto direto da irreligião, na religião é pura e simplesmente abuso.

A religião pode adoecer, mas não é doença

Mas abusus non tollit usum. Não é porque a religião é usada para funções inominá-veis que ela se mostra falsa, tornando-se ipso facto ilegítima. É preciso sempre dis-tinguir natureza e função ou uso. A natureza da Religião é boa, sua utilização é que pode ser má e até criminosa. Sto. Agostinho afirmava que "não se devem culpar as coisas em si mesmas, mas os homens que delas fazem mau uso". E exemplifica:

"Crês que se deve acusar o ouro por causa dos avaros, ou os alimentos por causa dos glutões, ou o vinho por causa dos bêbados, ou os encantos da mulher por causa dos libertinos e dos adúlteros...?"

Aplicando esta distinção ao caso da religião, o político e escritor francês Benjamin Constant (+1830) declarava ironicamente: "Tornar-se incrédulo porque loucos e maus abusaram da religião é o mesmo que se fazer eunuco porque devassos contraíram sífilis."

Porque os efeitos anti-humanos da religião advêm apesar de seus princípios, a críti-ca mais severa contra seus abusos sociais proveio sempre do seio da própria religião. A melhor critica da religião sempre foi uma autocrítica. É o que se vê nos Profetas, quando atacam um culto que se acompanha de injustiça; no Cristo, quando denuncia o farisaísmo como perversão da Religião da Aliança; e também nos grandes fundadores de Religião, como Buda, se levantando contra o brahmanismo decadente do tempo; Zoroastro, contra a religião idolátrica do Irã; Muhamad, contra o poli-teísmo e superstição das tribos da península arábica e assim por diante. Tinha, pois, razão Pascal quando observou: "A verdadeira religião ri-se da falsa".

E hoje, não é o próprio magistério da Igreja, especialmente na América Latina, que clama contra as violências e as injustiças perpetradas em nome da fé? E não vão por aí também os cem e mais pedidos de perdão que fez o Pontífice atual por erros co-metidos por cristãos contra os princípios do próprio cristianismo, embora sob a sua invocação?

Seja como for, é preciso dizer que a religião pode adoecer, mas não é doença. Como todo organismo vivo, a religião está continuamente ameaçada de enfermida-des. Mas a própria religião não pertence ao mundo do patológico, como imaginaram Marx, Nietzsche, Freud e outros pretensos "iluminados" do século passado, hoje largamente refutados pela própria história, embora continuem a fazer discípulos nos meios "cultos".

É verdade que, para ser plenamente sadia, a sociedade precisa de religião, mas é também verdade que, para tal função, a religião precisa ser, ela mesma, saudável. Uma religião doente infecciona toda a sociedade (e vice-versa). Foi justamente ao redor do lema "sanar o mundo" que se reuniram, na Itália, em novembro de 1995, quase mil representantes das maiores religiões do mundo na VIª Assembléia da Conferência Mundial das Religiões pela Paz (WCRP). De fato, a primeira e mais e-lementar contribuição que pode prestar a religião à sociedade é ser sadia, isto é, autêntica, verdadeira.

Sinais de saúde social da religião

Mas quais são os sinais de que uma religião goza de boa saúde social? São funda-mentalmente dois: precisamente a justiça e a paz.

1° sinal: Justiça. Sadia e boa é uma religião quando humaniza as pessoas e os po-vos, desaliena e liberta os pobres. Falando de modo simples e claro: quando leva a "amar ao próximo como a si mesmo". Isso, que chamamos "regra áurea", não é o que precisamente professam todas as religiões, sem exceção? Portanto, uma religião se legitima socialmente quando suscita fraternidade e libertação, compaixão e solidariedade.

E a "opção pelos pobres"? - perguntará alguém. É hoje uma evidência que para a fé cristã o pobre possui um lugar privilegiado. Mas devemos também saber que todas as grandes religiões dedicam uma atenção particular ao pobre. Disso dá testemunho a "Declaração final" do encontro mundial das religiões de que falamos há pouco. Eis aqui três afirmações inequívocas desse documento autorizado, dando conta da presença da "opção pelos pobres" nas religiões:

"As Comunidades religiosas se interessam em particular pelas vítimas da humanidade, pelos pobres e oprimidos, aproximando-se deles e invocando justiça e fraternidade. (...) As Religiões falam de uma aten-ção especial às vítimas da sociedade em termos de compaixão, justiça, igualdade e amor. (...) As Comunidades religiosas estão chamadas a pôr-se ao lado dos membros mais pobres e débeis da sociedade."

2° sinal: Paz. Sadia e boa é uma religião quando promove a não-violência e o amor à paz, expressões de respeito pela liberdade das pessoas. Isto é o que se chama uma religião "libertária", ou seja, amante da liberdade, tanto para si mesma, como para os outros.

Por certo, toda religião que se preza possui seus dogmas, pelos quais formula suas próprias verdades, suas convicções inabaláveis. Ela pode legitimamente pedir que se morra por eles, mas nunca que se mate em nome deles. Isso é fundamentalismo. Ora, entendido como apego fanático e irracional aos textos fundacionais, levando à intolerância, à imposição e à violência, o fundamentalismo é um cancro para qual-quer religião e um flagelo para toda sociedade.

Apesar de ter cedido à "ideologia da guerra", o Cristianismo é, em suas raízes e-vangélicas, uma religião de paz, do respeito incondicional à pessoa humana e à vida, em todas as suas formas, como entendeu muito bem S. Francisco. Testemu-nham-no tantos movimentos pacifistas radicais na história do Cristianismo, desde o dos mártires, passando pela oposição a qualquer guerra das igrejas evangélicas do século XVI, até os atuais movimentos não-violentos, inclusive o gandhismo, que tem também uma raiz cristã.

As Comunidades eclesiais de hoje, graças também aos movimentos de resistência não-violenta, estão reaprendendo o valor da paz, e não somente como fim, mas também como meio para construir um mundo mais humano. Além disso, o magistério dos Papas do século XX, especialmente do atual bispo de Roma, assim como o ensino do Vaticano II na Gaudium et Spes (em particular o n. 78,5, onde louva as iniciativas não-violentas) significaram um grande avanço na recuperação do ideal da paz como projeto e como processo.

Infelizmente, a recente guerra empreendida pelos EUA no Afeganistão (a partir do 7 outubro) pôs dolorosamente a nu o quanto a "lei do talião", germe de todo belicismo, está profundamente arraigada nas mentalidades dos povos que se professam cristãos. Estes precisam ainda caminhar muito para que o evangelho da paz e do perdão atue como fermento de renovação nas relações entre os cidadãos e também entre os povos do mundo, de sorte que surja enfim uma sociedade onde, como profetiza o Salmo 85, "a justiça e a paz se abraçarão" (v. 11).

Nessa perspectiva, mostrou-se extremamente oportuna a "Mensagem de Paz" de João Paulo II para o novo ano de 2002, na qual convoca os povos e seus governan-tes a superarem toda violência, terrorista ou de retaliação que seja, e a darem-se reciprocamente o perdão, como condição para a paz. "Não há paz sem justiça e não há justiça sem perdão" repetiu por várias vezes o Pontífice.

Poderíamos sintetizar a função social da religião, dizendo que ela deve contribuir sempre para a vida e para a "vida em plenitude" (Jo 10,10). Ao contrário, uma reli-gião que favorece a opressão e a violência, é uma religião doente e que precisa urgentemente de cura. E é aqui que entra a teologia e sua função social.


* Texto escrito por Frei Clodovis M. Boff, osm.