Período Eleitoral: os lobos e mercenários estão soltos!

Mais uma vez estamos em período de eleição. Somos chamados à responsabilidade de escolher representantes e a eles delegarmos poderes muito especiais. A propaganda informativa da Justiça Eleitoral tem demonstrado o que isso significa: não saber escolher pode trazer conseqüências terríveis e sermos obrigados a passar quatro anos ouvindo um "besouro" zunindo em nossos ouvidos.

Nesta época aparece de tudo. Poucos bons candidatos e uma quantidade enorme de lobos e de mercenários, pilantras e picaretas. Lobos são os maus políticos, os aproveitadores, os oportunistas que, valendo-se do discurso demagógico e das falsas promessas, tentam se eleger para depois, na calada da noite, participar de "negociatas" que desviam o dinheiro do povo para o próprio bolso. Mercenários são os falsos pastores do povo que, nesta hora, deviam defendê-lo contra os ataques dos lobos, mas terminam, por motivos egoístas e por interesses escusos, abandonando a comunidade para dar apoio a corruptos e ladrões.

Na Bíblia encontramos palavras duras contra os dois tipos de personagens. O profeta Amós, por exemplo, denuncia aqueles que corrompem o justo por dinheiro e compram o pobre com um par de sandálias, esmagando no pó da terra a cabeça do indigente (Am 2,6-7). Denuncia também as "vacas gordas de Basham", ou seja, as madames e dondocas da alta sociedade de então, que exigiam de seus senhores uma vida de luxo e de ostentação às custas da exploração dos indigentes e da trituração dos pobres (Am 4,1-3). É verdade que agora a compra de votos é crime, mas mesmo assim, em muitos lugares ainda existem formas disfarçadas de comprar o eleitor. E um desses disfarces é o assistencialismo, através do qual o pobre continua recebendo como esmola o que ele tem direito por justiça. A metáfora das vacas, segundo alguns estudiosos da Bíblia, quer exatamente denunciar um sistema baseado no luxo de alguns às custas da miséria da grande maioria.

Em outros lugares os textos bíblicos se voltam contra os pastores, cuja tarefa seria exatamente defender o povo contra esses lobos. Será suficiente, aqui, lembrar a palavra de Jesus no evangelho de João. Ele denuncia o mercenário que, ao ver chegar o lobo, abandona o rebanho e foge, permitindo que o lobo se apodere das ovelhas e dizime o rebanho. Sendo mercenário, isto é, pago para tomar conta das ovelhas, e não dono delas, ele não se importa com elas. Não vai arriscar a sua vida por elas (Jo 10,11-13).

Por várias vezes, em diversos dos meus escritos, tenho denunciado o fato de que, de algum tempo para cá, as lideranças cristãs abdicaram de sua responsabilidade de guiar e de conduzir o povo, por "bons caminhos" para "pastagens verdejantes" e "fontes tranqüilas" (cf. Sl 23,2-3), a exemplo do Mestre Jesus. Hoje os pastores, de um modo geral, perverteram a natureza do pastoreio e permitiram que o povo se dispersasse e fosse presa de pilantras e de animais selvagens. A quase totalidade das lideranças não cuida do povo, não é solidária com ele, não conhece os seus problemas, não se faz companheiro ou companheira e não procura ligar o próprio destino ao destino do povo.

Isso porque, como nos diz Jesus no evangelho de João, uma boa parte das lideranças de hoje não é formada de autênticos pastores, mas apenas de "peões contratados" que visam lucros pessoais sem limites, tanto econômicos como de poder. Assim, segundo uma feliz expressão de Boff, a quase totalidade das lideranças de Igreja termina por utilizar o cajado contra as ovelhas, ao invés de utilizá-lo contra os lobos. Os exemplos estão aí. Basta, com honestidade e sinceridade, dar uma olhada na Igreja para perceber como isto está acontecendo. Ainda é um verdadeiro milagre a existência de pastores, com Dom Erwin Kräutler, bispo-prelado do Xingu (PA), dispostos a, como Jesus, se despojar da própria vida pelas ovelhas (cf. Jo 10,15).

Diante dessa situação é indispensável e urgente resgatar a dimensão política da vocação das lideranças cristãs. Por liderança cristã entendo dizer todas aquelas pessoas que realizam algum tipo de serviço de coordenação e de animação nas comunidades. Mas no caso da Igreja Católica Romana trata-se, sobretudo, de recuperar a dimensão política da vocação dos bispos e dos padres, uma vez que eles são os que mais diretamente estão à frente das comunidades.

Os pastores não podem esquecer que eles, como o Grande Pastor, precisam estar atentos às necessidades dos mais pobres e comprometidos na defesa dos direitos dos mais fracos. E no mundo em que vivemos isso só se torna possível através da participação, com os demais cidadãos e as demais cidadãs, de todos aqueles momentos e atividades que dizem respeito à promoção do bem público, do bem de todos. Puebla, em 1979, afirmou que a fé cristã não despreza a atividade política, mas, pelo contrário, a valoriza e a tem em alta estima. Por isso, sempre segundo Puebla, a dimensão política é constitutiva do ser humano e representa um aspecto fundamental e relevante da convivência humana. Logo, o compromisso político, a tarefa de construir o bem comum, é também tarefa da Igreja e de seus pastores e ministros. Aliás, diz acertadamente Puebla, a política é uma forma de dar culto ao único Deus, dessacralizando e ao mesmo tempo consagrando o mundo a Ele. E a liderança cristã que se recusa a participar da política, no sentido apenas explicado, deixa de cultuar o verdadeiro Deus e cai na idolatria.

O resgate da dimensão política da vocação das lideranças cristãs precisa ter como referência a prática de Jesus de Nazaré, considerado pela Carta aos Hebreus "o pastor supremo das ovelhas por ter derramado o sangue da aliança eterna" (Hb 13,20). Mas ela passa também pelo resgate da dimensão humana da vocação. De fato, são os desequilíbrios humano-afetivos que levam as lideranças cristãs a terem medo de se comprometer com a defesa do povo, e a se colocarem do lado dos poderosos e corruptos. São os desequilíbrios humanos e afetivos que não permitem a coragem de derramar o sangue na defesa do povo, como fez o grande pastor, Jesus. Mas essa questão será o tema da nossa próxima conversa.


* Artigo escrito por José Lisboa Moreira de Oliveira. Filósofo. Doutor em teologia. Foi assessor da CNBB. É gestor do Centro de Reflexão sobre Ética e Antropologia da Religião, da UNB. Professor de Antropologia da Religião e Ética. Autor de 13 livros e dezenas de artigos sobre o tema da vocação e da animação vocacional.